José Roberto Firmino Junior

Padre Roberto Landell de Moura em Caconde: a passagem pelo interior paulista de um pioneiro da comunicação sem fio

A passagem por Caconde de um dos pioneiros brasileiros da radiocomunicação.


Padre Roberto Landell de Moura em Caconde: a passagem pelo interior paulista de um pioneiro da comunicação sem fio

Um padre, um inventor e uma passagem marcante por Caconde

Quando se fala em Roberto Landell de Moura, é comum que a primeira lembrança seja a de um padre brasileiro associado aos primórdios da radiocomunicação. Mas a história desse personagem também está ligada diretamente a Caconde.

Em 1908, a cidade recebeu como vigário um sacerdote que já carregava uma trajetória incomum. Padre Roberto Landell de Moura era religioso, pesquisador e inventor, interessado em fenômenos relacionados à eletricidade e às comunicações. Seus experimentos com transmissão sem fio o colocaram entre os pioneiros brasileiros dessa área.

Sua passagem por Caconde foi curta, mas deixou registros que atravessaram mais de um século.

E talvez o mais surpreendente seja descobrir que a comunidade cacondense não queria que ele fosse embora.

Quem foi Roberto Landell de Moura?

Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre, em 21 de janeiro de 1861, e morreu na mesma cidade em 30 de junho de 1928.

Sacerdote católico, estudou Teologia em Roma e também teve formação em Física e Química, conhecimentos que contribuíram para sua trajetória como inventor.

Landell dedicou parte importante de sua vida à experimentação científica. Desenvolveu sistemas relacionados à transmissão de sinais e de voz sem fios e é reconhecido como um dos pioneiros brasileiros da radiocomunicação.

É importante, entretanto, evitar uma simplificação muito comum: afirmar que Landell foi, sozinho e de maneira incontestável, "o inventor do rádio". A história da radiocomunicação envolveu diversos pesquisadores em diferentes países. O que a documentação permite afirmar com segurança é que Landell foi um pioneiro brasileiro de enorme importância nas experiências de transmissão sem fio de voz e sinais. O próprio Memorial dedicado ao sacerdote o apresenta como precursor da transmissão de voz sem fio.

E foi justamente esse homem, já envolvido com ciência e invenções, que chegou a Caconde em 1908 para exercer seu ministério religioso.

A chegada a Caconde

Em 2 de julho de 1908, Roberto Landell de Moura foi nomeado vigário encomendado da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Caconde.

Sua posse ocorreu em 19 de julho daquele ano.

Naquele período, a estrutura territorial e religiosa de Caconde era muito diferente da atual. A paróquia atendia uma extensa área rural e diversas comunidades. Tapiratiba, então uma vila e núcleo rural, estava vinculada a Caconde, e Landell também atendia aquela região.

A cronologia de sua vida religiosa registra sua passagem por Caconde em 1908 e sua posterior transferência para a Paróquia do Menino Deus, em Porto Alegre, onde assumiu em 18 de outubro daquele mesmo ano.

Sua permanência em Caconde durou apenas alguns meses.

Mas foram meses suficientes para criar uma ligação que seria registrada em documentos históricos.

Caconde queria que Landell permanecesse

Entre os documentos mais importantes para compreender a relação entre o padre e a comunidade está um registro preservado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul — IHGRGS.

Trata-se do documento identificado como LM-0028, um abaixo-assinado dos católicos da Paróquia de Caconde dirigido a Dom Duarte Leopoldo e Silva, então Arcebispo Metropolitano de São Paulo.

Datado de 26 de agosto de 1908, o documento possui oito páginas e registra o pedido para que Landell de Moura permanecesse como vigário da comunidade.

A descrição oficial do acervo é bastante significativa: os católicos lembravam os serviços prestados por Landell na condução da vida espiritual dos fiéis.

Não se trata, portanto, apenas de uma lembrança transmitida pela tradição oral.

Existe um documento histórico preservado em arquivo institucional que comprova a mobilização dos católicos de Caconde pela permanência do sacerdote.

Uma comunidade mobilizada

Fontes históricas sobre a passagem de Landell pela cidade registram que o movimento pela sua permanência envolveu diferentes setores da sociedade local.

Há referência a um documento com dezenas de assinaturas, incluindo representantes do poder público, da Justiça, comerciantes, fazendeiros e moradores.

Uma obra histórica sobre a Paróquia de Caconde menciona 82 assinaturas e cita entre os participantes o prefeito, o presidente da Câmara, vereadores, juiz de Direito, comerciantes, fazendeiros e a população em geral.

O dado ajuda a dimensionar a importância que Landell havia adquirido na comunidade em tão pouco tempo.

Para uma cidade do início do século XX, mobilizar diferentes segmentos sociais para pedir a permanência de um vigário revela que sua atuação havia produzido uma impressão bastante positiva.

A Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Se existe um patrimônio material que preserva diretamente a memória da passagem de Landell por Caconde, ele é a Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Localizada na Avenida Sampaio Vidal, a capela é reconhecida pelo município como um importante patrimônio religioso e histórico.

A capela, hoje centenária, foi abençoada e inaugurada em 8 de setembro de 1908 pelo Padre Roberto Landell de Moura.

A documentação histórica da Paróquia acrescenta detalhes importantes.

Segundo o registro reproduzido em obra histórica sobre Caconde, o terreno foi doado por Antônio Eusébio de Assis, que também teria construído a capela com recursos próprios, cumprindo uma promessa.

Em 26 de agosto de 1908, Dom Duarte Leopoldo concedeu a provisão necessária para a bênção da capela, a pedido do Padre Landell.

Poucos dias depois, em 8 de setembro, o próprio Landell realizou a bênção e inauguração.

A data também possui significado religioso: 8 de setembro é celebrado pela Igreja Católica como a festa da Natividade de Nossa Senhora.

Mais de um século depois, a capela continua sendo um dos lugares de Caconde capazes de contar, silenciosamente, uma parte da história desse personagem extraordinário.

Uma coincidência que atravessou gerações

A ligação entre Landell e a capela ganhou ainda outra dimensão ao longo do tempo.

A festa dedicada a Nossa Senhora da Conceição Aparecida e a São Roque continua fazendo parte do calendário religioso de Caconde, com missas, procissão e atividades em torno da capela.

Assim, uma cerimônia realizada por Landell em 1908 continua relacionada a uma manifestação de fé que atravessa gerações.

É um exemplo de como a história local não está apenas nos livros ou nos arquivos: ela também permanece viva nos lugares, nas festas e nas tradições.

Landell fez experiências de rádio em Caconde?

Essa é uma pergunta que naturalmente surge quando conhecemos sua história.

A resposta precisa ser cuidadosa.

Embora Landell já fosse um pesquisador e inventor envolvido com experiências de transmissão sem fio, não encontramos documentação primária suficiente para afirmar que ele tenha realizado em Caconde uma experiência de rádio.

É importante fazer essa distinção.

Podemos afirmar que:

  • Landell era um pioneiro das experiências de comunicação sem fio;
  • ele já havia desenvolvido pesquisas científicas antes de chegar a Caconde;
  • foi vigário da cidade em 1908;
  • atuou religiosamente na região;
  • participou da bênção e inauguração da Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida;
  • e conquistou a simpatia da população local.

Mas não devemos transformar a ausência de documentação em uma certeza.

Até que novos documentos sejam encontrados, a afirmação de que Landell "transmitiu rádio em Caconde" deve ser tratada como hipótese, e não como fato histórico comprovado.

Ciência e fé

A biografia de Landell de Moura também chama atenção pela convivência entre sua vocação religiosa e seu interesse científico.

Ele não via necessariamente essas duas dimensões como incompatíveis. Uma frase atribuída ao próprio sacerdote resume sua maneira de enxergar suas descobertas: "Eu vi sempre nas minhas descobertas uma dádiva de Deus."

Esse aspecto ajuda a compreender por que sua trajetória é tão singular.

Landell não era simplesmente um inventor que por acaso era padre.

Também não era apenas um sacerdote que possuía curiosidade científica.

Era um homem que procurava integrar sua fé, sua formação intelectual e sua busca por conhecimento.

E durante alguns meses de 1908, esse personagem esteve em Caconde.

O fim de sua passagem pela cidade

Apesar da mobilização dos moradores, Landell não permaneceu em Caconde.

Em 27 de setembro de 1908, pediu exoneração.

Deixou a cidade em outubro e, em 18 de outubro, já estava em Porto Alegre, assumindo a Paróquia do Menino Deus.

Sua passagem por Caconde, portanto, foi breve.

Mas a documentação mostra que não foi insignificante.

Ao contrário: deixou uma capela, registros eclesiásticos, documentos históricos e uma memória afetiva que permaneceu ligada à comunidade.

O documento que merece ser redescoberto

Talvez um dos maiores tesouros históricos dessa história esteja justamente em um arquivo distante de Caconde.

O IHGRGS mantém em seu inventário o acervo pessoal de Roberto Landell de Moura.

Entre os documentos está o já mencionado LM-0028, o abaixo-assinado dos católicos de Caconde.

A descrição arquivística informa:

Local: Caconde, São Paulo
Data: 26 de agosto de 1908
Tipo: abaixo-assinado
Extensão: 8 páginas
Autoria: vários autores
Destinatário: Dom Duarte Leopoldo e Silva
Finalidade: solicitar a permanência de Landell de Moura como vigário da comunidade.

Esse documento é particularmente valioso porque permite sair do campo das suposições.

Ele demonstra que, há mais de 118 anos, moradores de Caconde se mobilizaram para dizer à autoridade religiosa que queriam que aquele padre continuasse entre eles.

Uma história que ainda pode revelar muito mais

A pesquisa sobre Landell de Moura em Caconde está longe de estar encerrada.

Ainda há perguntas que podem ser investigadas em documentos paroquiais, arquivos públicos e acervos particulares.

Quem exatamente assinou o abaixo-assinado?

Onde Landell morou durante sua permanência na cidade?

Quais missas, batismos, casamentos e outras celebrações religiosas realizou?

Quais comunidades rurais visitou?

Existem cartas suas escritas em Caconde?

O Livro do Tombo da Paróquia registra outros episódios de sua passagem?

Existem fotografias, jornais ou documentos particulares ainda preservados por famílias cacondenses?

Essas perguntas abrem uma possibilidade fascinante: reconstruir não apenas a passagem de um personagem famoso por Caconde, mas o cotidiano de Caconde durante aqueles meses de 1908.

Caconde na história de um pioneiro brasileiro

A história costuma colocar grandes personagens em lugares igualmente grandes.

Landell de Moura, entretanto, nos lembra que descobertas e trajetórias extraordinárias também podem estar ligadas às pequenas cidades do interior.

Em 1908, Caconde recebeu um padre que também era cientista e inventor.

Aqui ele exerceu seu ministério.

Aqui participou da história de uma capela que ainda existe.

Aqui conquistou a confiança de moradores.

E aqui uma comunidade chegou a se mobilizar para tentar impedir sua partida.

Por isso, quando alguém passar pela Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, na Avenida Sampaio Vidal, poderá enxergar muito mais do que uma construção religiosa centenária.

Poderá lembrar que, naquele lugar, em setembro de 1908, esteve um homem que dedicou sua vida à fé e à busca pelo conhecimento e que hoje ocupa um lugar especial na história brasileira das telecomunicações.

Padre Roberto Landell de Moura passou pouco tempo em Caconde. Mas Caconde passou a fazer parte da história de Landell — e essa é uma história que merece ser conhecida, preservada e contada.


Fontes consultadas

  • Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul — Inventário do Acervo Padre Roberto Landell de Moura, documento LM-0028.
  • Memorial Roberto Landell de Moura — Vida Religiosa e Cronologia.
  • Portal de Turismo de Caconde — Capela Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
  • História da Paróquia de Caconde — capítulo referente ao Padre Roberto Landell de Moura e à Capela de Nossa Senhora Aparecida.
  • Acervo e documentação histórica relacionada a Roberto Landell de Moura.

Nota editorial: O Guia Caconde opta por distinguir fatos documentados de afirmações ainda não comprovadas. Por isso, não atribuímos a Landell experiências de rádio realizadas em Caconde sem documentação primária que as confirme.



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